Rest in peace
As caixas de papelão estão espalhadas pelo meu quarto e têm me feito tropeçar sempre que percorro o caminho que vai da minha cama até a cômoda. Acabei deixando as gavetas bagunçadas de tanto as revirar à procura de escritos perdidos que sempre deixo por aí. Pequenos textos que refrescam a minha memória e que fazem par com os calos que adquiri naquele dia em que fomos à praia no teu aniversário de dezoito anos. O sol estava tão quente e os meus pés doíam por causa das sapatilhas. Ainda lembro de ter levado um carão teu por ter ido de calça comprida (risos à parte). O tempo passou tão devagar nesse dia. Foi bom, mas sinto saudades de quando os calos não faziam parte de mim ainda.
Tuas fotografias estão jogadas no fundo da última gaveta da cômoda. Todos os registros que tivemos até uns dias atrás ficaram ali guardados juntamente com o meu material da disciplina de plástica que tive no semestre passado. As cores das tintas de tecido espalhadas pela gaveta - por falta de cuidado na hora de fechar a tampa direitinho - se confundem com o colorido das nossas fotos. Tão vivas. Eu ainda dou uma espiadinha de vez em quando pra lembrar de como a gente era e solto risadas por perceber o quão imprevisível era o nosso dia-a-dia.
Mudei a cama de lugar pela sexta vez. A decoração já não me agradava mais. Odeio ficar vendo uma coisa no mesmo lugar depois de muito tempo, já me causa aborrecimento. A prateleira de livros é organizada constantemente por causa das cores que me aborrecem também. Talvez eu que seja chata demais, e, não, a decoração em si. O engraçado é que a única coisa que não cansei de ver nesse intervalo de tempo significativo foi o teu rosto. Os teus olhos. Eu presto tanta atenção nos olhos das pessoas e nunca nem tive o interesse de observar os teus. Curioso. O desenho deles não me vem à memória, mas os teus óculos grandes e aquela tua cara de menino sem eles não passaram despercebidos. Mas eu gostava mesmo era do teu cabelo castanho claro, Courret. Parecia uma moita quando passava do tempo de cortar, mas era tão bonito. Os teus pulsos cheios de pulseiras. Na primeira vez que te vi, nem era assim. Tu só usava uma coisa preta que logo depois foi substituída por uma pulseira e, então, não parou mais.
Suspiro.
É tanta coisa pra organizar e colocar numa caixa. Poderia falar de tudo o que lembro, mas não há espaço suficiente e o sepultamento das minhas memórias começou sexta passada. O último enterro que fui foi tão desagradável que a única coisa que quero agora é terminar isso logo.
Vestida de preto e sem batom, carrego a caixa de lembranças até a nossa lápide. Já é o terceiro dia que faço esse mesmo ritual até chegar aqui. As pessoas já devem ter se cansado e pensado que não vai ter mais fim. Decidiram não vir, mas pouco me importa. Prefiro o silêncio e a presença do mínimo possível de pessoas, pois as lágrimas que correm pelo meu rosto só precisam ser vistas por mim [e por ti].

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